Boletim Focus desta semana mostra IPCA projetado em 5,33% para 2026 e Selic estimada em 14% ao ano, com pressão vinda do mercado de trabalho e do cenário externo
A previsão do mercado financeiro para a inflação brasileira subiu pela décima quinta semana consecutiva. A previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,3% para 5,33% este ano, de acordo com o Boletim Focus divulgado nesta semana pelo Banco Central. O número estoura o teto da meta, fixada em 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual, o que significa que o limite superior da banda é 4,5%. Ficar acima desse teto por mais de um ano seguido obriga o presidente do Banco Central a prestar explicações formais ao Ministério da Fazenda. Agência Brasil
O cenário que explica essa trajetória é uma combinação de fatores internos e externos que os economistas não esperavam ser tão persistente. A guerra no Oriente Médio, que se refletiu no aumento dos preços de combustíveis e de alimentos, dificultou a queda da inflação em ritmo mais elevado. No campo doméstico, o mercado de trabalho aquecido, com desemprego historicamente baixo, pressiona os preços de serviços. Quanto mais pessoas trabalham e ganham, mais consomem, e mais difícil fica para a inflação recuar. Agência Brasil
Como chegamos até aqui
De junho de 2025 a março deste ano, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. O Copom iniciou o corte dos juros em março, num cenário de queda da inflação. O início dos cortes foi recebido com alívio pelo mercado, que apostava em uma trajetória mais rápida de queda dos juros. O que aconteceu, porém, foi diferente: a inflação, que parecia controlada, voltou a subir puxada pelos alimentos e pelos combustíveis, forçando o Banco Central a frear o ritmo de afrouxamento monetário. Agência Brasil
Nesta edição do Focus, os analistas de mercado elevaram a estimativa para a taxa básica até o fim de 2026, de 13,75% ao ano para 14% ao ano. A revisão para cima da Selic estimada ao fim do ano é um sinal de que o mercado acredita que o ciclo de cortes será mais curto do que o esperado. O Bank of America chegou a projetar que o corte de junho seria o último de 2026, com a Selic encerrando o ano em 14,25%. Agência Brasil
Para quem tem dívidas atreladas à taxa básica, como financiamentos, cartão de crédito e empréstimos pessoais, a notícia é negativa: os juros vão cair menos e mais devagar do que se esperava no início do ano. Para quem tem investimentos em renda fixa atrelados à Selic ou ao CDI, o cenário é favorável, pelo menos no curto prazo.
O que dizem as agências e o que pode mudar
A agência de classificação de risco Fitch Ratings elevou recentemente a projeção de crescimento do PIB brasileiro para 2,1% em 2026, citando surpresas positivas nos dados de atividade econômica e um mercado de trabalho aquecido. O desempenho do país destoa da tendência global. No mesmo relatório, a Fitch cortou as previsões de crescimento para 16 das 21 economias analisadas. O Brasil cresce mais do que o esperado, mas essa mesma expansão é parte do problema: uma economia que cresce com mercado de trabalho forte gera mais pressão inflacionária. Exame
O PIB cresceu 1,1% no período, ante apenas 0,3% no trimestre anterior. A expansão foi impulsionada por um mercado de trabalho historicamente forte, pelo dinamismo dos setores agropecuário e extrativista e por uma forte recuperação da formação bruta de capital fixo, que avançou 3,5%. Exame
Para os próximos meses, o mercado observará com atenção os índices de preços mensais, as decisões do Copom e os desdobramentos do cenário externo. Se o conflito no Oriente Médio arrefecer e os preços de energia caírem, há espaço para uma revisão mais positiva da trajetória da inflação. Se as incertezas externas persistirem, especialmente com o fechamento do Estreito de Ormuz que o cenário base da Fitch incorpora, a pressão sobre os preços seguirá, e a Selic pode permanecer em níveis elevados por mais tempo do que o mercado gostaria.
Fontes: Agência Brasil, Exame
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

