Guardar patrimônio e administrar patrimônio são coisas diferentes, e a maioria das famílias só percebe essa diferença depois que o volume de bens já ultrapassou a capacidade de qualquer pessoa cuidar de tudo sozinha. Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado e filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, observa que, em relação a um imóvel alugado, uma carteira de investimentos e participações em duas ou três empresas, um único responsável pode gerenciar todos os detalhes de forma eficaz até certo ponto. Ao passar disso, decisões começam a ser tomadas tarde, ou não são tomadas de forma alguma, simplesmente porque não existe tempo nem estrutura para acompanhar tudo ao mesmo tempo.
Esse é o momento em que a gestão de patrimônio deixa de ser tarefa pessoal e passa a exigir alguma forma de estrutura profissional, ainda que informal no início. As perguntas que seguem, ainda que pareçam básicas, raramente têm resposta pronta dentro da própria família.
Faz sentido cada herdeiro administrar sua própria parte do patrimônio separadamente?
Uma família divide, em vida, os imóveis entre três irmãos, cada um responsável por administrar e usufruir da sua parte de forma independente. Em poucos anos, um dos imóveis está em excelente estado, outro sofreu com falta de manutenção, e o terceiro gerou uma dívida fiscal que o irmão responsável não conseguiu resolver a tempo. O patrimônio, antes tratado como um conjunto se transformou em três histórias completamente diferentes de sucesso e fracasso.

Rodrigo Gonçalves Pimentel observa que dividir patrimônio nem sempre significa dividir também a capacidade de administrá-lo bem. Manter certa centralização na gestão, mesmo quando a propriedade já está formalmente dividida entre herdeiros, permite economia de escala, padronização de critérios e acesso a profissionais que nenhum herdeiro conseguiria contratar isoladamente para cuidar apenas da sua fração do patrimônio.
Quando vale a pena criar uma estrutura profissional para cuidar do patrimônio da família?
Não existe um valor mágico de patrimônio a partir do qual essa estrutura se justifique. Entretanto, existe um sinal mais confiável: o momento em que decisões de investimento, manutenção ou reinvestimento começam a ser adiadas porque ninguém na família tem tempo, conhecimento técnico ou disposição para tratá-las com a atenção que merecem.
Na observação de Rodrigo Gonçalves Pimentel, esse tipo de estrutura, que pode ser um escritório de administração de bens ou uma equipe técnica contratada especificamente para esse fim, se paga com relativa rapidez quando evita erros que a gestão informal normalmente comete: prazos perdidos, oportunidades de investimento não aproveitadas e custos operacionais que poderiam ser reduzidos com escala.
Como equilibrar o dinheiro que a família usa para viver com o dinheiro que precisa continuar investido?
Toda família que vive, ao menos em parte, da renda gerada pelo próprio patrimônio, enfrenta essa tensão: quanto retirar para sustentar o padrão de vida atual sem comprometer a capacidade do patrimônio de continuar gerando renda no futuro? Retirar demais hoje significa herdeiros mais pobres depois. Retirar de menos, por outro lado, pode significar uma vida de privação desnecessária diante de um patrimônio que, no papel, é robusto.
Rodrigo Gonçalves Pimentel considera que a resposta passa por uma política de distribuição definida com antecedência e revisada periodicamente, baseada na rentabilidade real dos ativos, e não apenas na necessidade momentânea de quem está pedindo o recurso. Sem essa política, cada pedido de retirada se torna uma negociação individual, o que abre espaço para que o herdeiro mais insistente receba mais do que deveria, em detrimento dos demais.
Quem deveria decidir a política de investimentos de uma família com patrimônio diversificado?
Deixar essa decisão para quem grita mais alto, ou para quem tem mais tempo livre para acompanhar o mercado, é uma das formas mais comuns de comprometer a qualidade das decisões de investimento de uma família. A alternativa mais eficiente costuma envolver um comitê de investimentos, formado por membros da família e, sempre que possível, por consultores externos com conhecimento técnico real.
Esse comitê não precisa concentrar poder absoluto sobre todas as decisões, mas deve ter autoridade suficiente para impor critério técnico onde a intuição familiar tende a falhar, sobretudo em decisões que envolvem prazo longo e resultado incerto no curto prazo.
O que realmente significa administrar um patrimônio, e não apenas possuí-lo?
Possuir patrimônio é, em boa parte, uma questão de sorte: nascer em determinada família, receber determinada herança. Administrá-lo bem é outra coisa inteiramente diferente, e depende de decisões repetidas ao longo do tempo, não de um único acerto inicial. Rodrigo Gonçalves Pimentel reflete que a diferença entre patrimônio guardado e patrimônio cuidado aparece, sobretudo, na forma como a família reage a imprevistos: quem administra bem já previu boa parte deles antes que aconteçam. É esse tipo de cuidado contínuo, e não o volume inicial de bens, que determina se um patrimônio cresce, se mantém ou desaparece.

