A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa que o erro mais comum e recorrente em situações de crise familiar é concentrar toda a atenção terapêutica em quem “demonstra” o problema com mais evidência, deixando de lado a dinâmica que sustenta esse sofrimento no dia a dia da casa.
Esse erro é bastante compreensível e comum: é natural querer ajudar quem está sofrendo de forma mais visível e urgente diante de todos. Mas essa lógica, por mais bem-intencionada que seja, costuma deixar de fora parte importante do que realmente precisa mudar dentro de casa.
O erro comum: tratar só o “paciente identificado”
Quando uma crise atinge uma família inteira, costuma haver uma pessoa que expressa o sofrimento de forma mais visível: o filho que passa a ter crises de ansiedade, o adolescente que fica agressivo, o cônjuge que entra em depressão profunda. É comum que toda a família concorde rapidamente em levar essa pessoa para terapia, como se o problema fosse exclusivamente dela, sem nenhuma relação com o resto da casa.
Taiza Tosatt Eleoterio comenta que esse raciocínio parece bastante lógico à primeira vista, mas costuma ignorar que o sofrimento individual, na maioria das vezes, é apenas a parte visível de uma dinâmica bem maior que envolve todos os membros da casa, ainda que de formas diferentes e nem sempre óbvias.
Por que esse erro costuma parecer lógico à primeira vista?
Apontar um único “problema” dentro da família costuma aliviar a ansiedade coletiva no curto prazo. Se existe um culpado, ou um doente claramente identificado, a família não precisa examinar o próprio funcionamento como um todo, o que é mais confortável, ainda que bem menos eficaz a longo prazo.
Esse alívio, porém, tem um custo real e significativo. Taiza Tosatt Eleoterio salienta que o tratamento de uma única pessoa raramente resolve os padrões que geraram o sofrimento em primeiro lugar, porque esses padrões continuam plenamente ativos no ambiente ao qual ela retorna todos os dias.
O que acontece quando só uma pessoa da família é tratada?
Muitas vezes, a pessoa em tratamento melhora dentro do consultório, mas volta para casa e encontra exatamente a mesma dinâmica difícil que a adoeceu em primeiro lugar. Sem mudança real no sistema familiar como um todo, os ganhos terapêuticos individuais tendem a ser mais frágeis e mais lentos de se sustentar ao longo do tempo, exigindo esforço constante para não regredir.
Em alguns casos específicos, quando essa pessoa melhora sozinha, o sintoma reaparece em outro membro da família, como se a tensão precisasse encontrar um novo lugar para se expressar dentro do próprio sistema familiar. Um filho que estava ansioso melhora bastante, e é a mãe que passa a apresentar sinais claros de esgotamento, sem que ninguém relacione as duas coisas entre si.
Como corrigir esse padrão?
O primeiro passo é reconhecer, com honestidade, que, embora uma pessoa possa realmente precisar de acompanhamento individual, a família como um todo também se beneficia de um espaço para revisar seus próprios padrões de conflito, comunicação e afeto ao longo do tempo.
Diante disso, entende-se que combinar acompanhamento individual com espaços de trabalho familiar conjunto, quando possível, costuma produzir resultados mais consistentes do que tratar isoladamente quem carrega o sintoma mais visível, distribuindo entre todos os membros a responsabilidade pela mudança necessária.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, corrigir esse erro recorrente não significa culpar a família pelo sofrimento de um de seus membros, mas reconhecer que mudança duradoura raramente acontece quando apenas uma pessoa se move dentro de um sistema que permanece exatamente igual ao redor dela, sem qualquer ajuste.

