Senso & Consenso

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Monumentos, mausoléus e o oco bronze frio

Somos dados à idolatria. De artistas, esportistas, políticos, em vida ou não. Mais póstumos do que na altivez de suas trajetórias. E grandes monumentos erguidos em concreto e bronze, ou mesmo em granito ou mármore, que muitas vezes nos comovem. Leva-nos ao extremo de entender uma estátua produzida – não escultura feita a mão, no cínzeo – mas em formas que recebem o metal derretido e amolda a face, os traços e, às vezes, até o corpo inteiro, como reprodução de personalidade, porém ocas. Em todos os sentidos.
Preferimos, ou melhor, é uma preferência prestar essas homenagens, postumamente, em detrimento ao reconhecimento em vida de quem a deu às causas sociais, culturais, econômicas e científicas, entre outras áreas do conhecimento humano ou profissional de determinado agente. De determinada pessoa, um ser humano provido de um diferencial de vida, que o leva ao apogeu e a glória, mas muitas vezes fica no obscurantismo da ignorância, sendo lembrada décadas depois por uma imagem ao relento. Um monumento frio ou até mesmo um nome de rua ou praça, ou de um prédio público, que não o representa.
São muitos os personagens expostos, de mausoléus a logradouros públicos, que hoje apenas servem de pousada de pombos e deles recebem o excremento natural de um ser vivo. E boa parte, senão a maioria, é bom lembrar, merecem o batismo dos pássaros e a poeira do tempo, por que nada representam, senão o egocentrismo dos pomposos sobrenomes de tradicionais famílias de fundadores a beneméritos sociais, porém de pouca produção e muita exploração. Temos incontáveis exemplos, dos quais alguns personagens de uma história solapada da verdade, mas enaltecida apenas na vaidade, que só reflete o vazio humano. O mesmo oco do bronze que o molda.
Dificilmente honramos os nossos, quando são nossos e nos representam de fato. Aos 90 anos, faleceu na terça-feira, 19, a antropóloga limeirense Eunice Ribeiro Durham. Eunice foi professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde se graduou em Ciências Sociais. A antropóloga foi orientadora de Ruth Cardoso, ex-primeira-dama do Brasil, na gestão de seu marido, o então presidente FHC. E esteve, também, no rol dos “intelectuais perseguidos” pela ditadura militar. Foi secretária do MEC na própria gestão FHC e muito contribuiu com a educação brasileira. Se alguém quiser conhecer a história e trajetória de Eunice Durham, basta entrar na Plataforma Lattes e descobrir até onde essa limeirense chegou. Vamos aguardar e ver se será lembrada para alguma homenagem póstuma oficial em Limeira.

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