Depósitos de humanos

Depósitos de humanos

Uma mulher próxima de minha família decidiu internar o marido em uma espécie de lar de idosos porque, segundo ela, não conseguia mais socorrê-lo depois de alguns surtos “psicóticos”. Na verdade, ela decidiu terceirizar o seu “problema” – ele, por sinal, não recebeu avaliação médica – e assim o fez. As irmãs do “doente”, por sua vez, apenas aceitaram a informação, comprometendo-se a auxiliar a cônjuge nas despesas decorrentes de sua ideia, e tão logo foi possível, agendaram uma visita. Recebidas por responsáveis deste recinto, reencontraram o ente querido tranquilamente sentado e ouviram o seguinte relato: – “Não sei o que estou fazendo aqui, pois sou a única pessoa normal como podem ver; os outros internados sequer conseguem se mexer”. Inquietas, logo pensaram se aquilo seria mesmo necessário, mas o pior viria poucas horas depois. Uma delas recebeu um telefonema do suposto responsável por aquele local e com ele travou um intenso bate-boca depois de ouvir diversas provocações. Segundo o “administrador”, as visitas estavam proibidas devido aos riscos de transmissão da Covid-19, mesmo informado, por esta irmã, que não houve invasão do estabelecimento, e sim se tratou de uma visita agendada e permitida. E mais: que não houve qualquer solicitação quanto ao uso de máscaras e outras medidas às quais se poderia esperar em um ambiente como aquele, quando ouviu uma ameaça: “- vou denunciá-la às autoridades competentes”. Ao saber desta história, e perguntado sobre tal, imediatamente sugeri uma minuciosa verificação da regularidade daquele local, incluindo a identificação de seu responsável. Porque, ao que tudo indica, as irmãs do paciente é que deveriam fazer a denúncia, de tão suspeita a história e a reação do dono. Pois bem. Lar de idosos, clínicas geriátricas, de recuperação de viciados e congêneres prestam serviços valiosos à sociedade, mas há, neste meio, pessoas que não cumprem as exigências necessárias para um trabalho de tamanha responsabilidade. E assim, de tempos em tempos, recebemos notícias do resultado das necessárias fiscalizações. Há dois dias, por exemplo, uma “força-tarefa convocada pelo Ministério Público resultou na interdição de uma clínica de reabilitação de dependentes químicos”, informa a Prefeitura, na qual estavam abrigados 87 homens. Há suspeitas que, entre os assistidos, havia pessoas internadas contra a vontade, o que entristece. “Depósito de humanos”, isso é tudo o que um lugar como esse não deve ser, e outros que estão à espera desta clientela deixada à própria sorte, mas que sustentam seus inescrupulosos donos.

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