Senso&Consenso: Quando o ‘eu’ se sobrepõe ao ‘nós’…

Senso&Consenso: Quando o ‘eu’ se sobrepõe ao ‘nós’…

A arquitetura da política brasileira, em tempos de pandemia, tem mostrado aos administradores públicos municipais que eles estão no topo da cadeia decisória, em relação ao enfrentamento do novo coronavírus, que já avança pelo seu quinto mês, sem uma perspectiva robusta que o faça regredir. Nós, os leigos, mas não negacionistas, nos embasamos em muitas análises das autoridades sanitárias, pesquisadores e especialistas, que se não chegaram a um denominador comum, pelo menos argumentam. Apresentam-nos fatos e dados, cujas bases sólidas e científicas nos dão um panorama da situação. Embora a conclusão ainda seja desconhecida. E nem se sabe se chegaremos a ela. Pelo menos neste momento.
Esse cenário tem levado prefeitos, os que vão para a tentativa de reeleição, a momentos de agonia, sem saber – e nesse caso é sem saber, mesmo – como agir ou deixar de agir. Decidir. Sobre o que, como e quando decidir. Só que o quando não pode ser demorado e o que mais chama atenção são  ‘o que e o como’. Convenhamos, é muito difícil, por que se há incertezas na ciência, como seguir protocolos tipo Porto Feliz, por exemplo? Ou cair no conto da cloroquina, da azitromicina e ivermectina? Vai, de longe, cair no achismo e compactuar com o negacionismo. E, principalmente, qual é a melhor decisão técnica, sem tirar a perspectiva política do caminho. Cá entre nós, e aqui esse ‘nós’ é um verdadeiro nó górdio na vida desses políticos a frente de suas administrações. E quem pode atestar se são decisões corretas? Se atendem aos protocolos sanitários ou se deixaram a realidade de lado, para buscar apenas uma resposta política?
Outra consequência desse momento proporcionado pela pandemia é justamente a disputa política. Ou seja, a busca por espaços sem se importar se vai contra ou a favor. E todos eles, nesse caso, deixaram a conjugação do verbo para a primeira pessoa do singular. O ‘eu sou, eu faço, eu decido, eu critico’. O ‘nós podemos fazer juntos’ ficou esquecido no cantinho escuro da vaidade pessoal. Aqui, lá e acolá. Enquanto quem sofre as consequências é a população, cuja parcela de culpa é bem acentuada, quando se fala em isolamento social, que era – e é – fundamental para o controle da velocidade na disseminação da doença, que numa leitura mais atenta nos traz apenas incertezas. A população, pelo menos uma grande parte dela, não deu bolas para a gravidade da situação. Os políticos, ora os políticos, fazem a política. As urnas eletrônicas, entretanto, não aceitarão choro atrasado.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*