MÁSCARA FACIAL: “Seu mau uso é pior do que não usá-la”

MÁSCARA FACIAL: “Seu mau uso é pior do que não usá-la”

Antonio Claudio Bontorim
LIMEIRA
claudio.bontorim@tribunadelimeira.com.br

Que a máscara de proteção individual, não só as cirúrgicas como as chamadas ‘sociais’ (confeccionadas em outros tecidos) é importante para conter a disseminação da pandemia do novo coronavírus, que provoca a Covid-19, não há mais dúvida. Usá-las de maneira correta, respeitando-se os critérios determinados por autoridades sanitárias faz a diferença. O que se discute, também, é que se o seu uso, no pós-pandemia, incorporado ao cotidiano das pessoas pode contribuir para que outras doenças respiratórias reduzam a sua incidência de contágio. Para entender melhor a situação, a Tribuna de Limeira foi ouvir a médica-infectologista Dra. Maria Beatriz Bonin Caraccio, coordenadora de Controle de Infecção Hospitalar da Medical, que falou de sua importância e de como países orientais, como o Japão, por exemplo, fazem uso dela. A médica lembrou, também, que o uso de máscaras no pós-pandemia não deve ser algo rotineiro, “por que o mau uso ainda é pior que não usar”. A Dra. Maria Beatriz falou, também, da Covid-19 e suas implicações.
Confira a seguir a entrevista completa da médica-infectologista da Medical.

Tribuna de Limeira: O uso da máscara de proteção, que se tornou peça importante na pandemia do novo coronavírus, se usada como costume, como acontece em alguns países como o Japão, pode prevenir outras doenças de transmissão oral-viral, como tosse, conversas, espirros e aglomerações?
Dra. Maria Beatriz Bonin Caraccio
: Países asiáticos como Japão já têm o hábito antigo de, ao apresentar qualquer sintoma gripal, utilizar máscaras para evitar a transmissão. Isto realmente reduz o risco de transmissão dessas doenças respiratórias mais comuns porque impede que as gotículas geradas pela tosse, espirro, bocejos e risadas da pessoa infectada atinjam outras pessoas e o ambiente. Cumpre lembrar que somente o uso de máscaras não impede a transmissão. Bem utilizada, ela reduz e precisa estar associada a higiene de mãos.

Tribuna – Parece-me que já há um estudo no RJ, onde houve uma diminuição nos casos da síndrome respiratória aguda grave, desde o início do uso das máscaras. Isso pode, de fato acontecer?
Dra. Maria Beatriz
: A SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) é causada não apenas pela ação direta do vírus, mas também por uma resposta exacerbada do organismo da pessoa à presença do vírus. Quanto menor a transmissão, menor será a chance de desenvolver a SRAG. Entretanto, não é somente dependente do vírus. Existem fatores de resposta que são individuais.

Tribuna: Na sua opinião seria interessante incentivar o uso da máscara no pós-pandemia? Você acredita que boa parte da população entenderia esses benefícios, usando esse tipo de EPI (equipamento de proteção individual)?
Dra. Maria Beatriz:
O uso de máscaras no pós-pandemia não deve ser algo rotineiro, para toda a população a todo momento, porque o mau uso é ainda pior que não usar. Pessoas, por exemplo, que colocam o tempo todo as mãos na parte anterior da máscara, local onde as gotículas ficam retidas, e depois colocam as mãos em outras superfícies ou pessoas, aumentam o risco de autoinoculação e de transmissão. Por outro lado, quando a pessoa apresentar sintomas de quadros respiratórios, o bom uso pode sim reduzir a disseminação do vírus. Sempre associada à higiene das mãos adequada e frequente.

Tribuna: Quais são as doenças virais mais comuns transmitidas de pessoa a pessoa, ou de pessoa a grupos, no Brasil? Principalmente as transmitidas da forma que coloquei, tosse, conversa, espirro, compartilhamento de objetivos pessoais, entre outras?
Dra. Maria Beatriz:
Além da Covid-19, as doenças mais frequentemente transmitidas por gotículas e secreções são o resfriado comum (adenovírus, rinovírus, e outros) e a gripe (vírus influenza). Entretanto, várias outras doenças também são transmitidas através de gotículas como a caxumba e a rubéola, por exemplo.

Tribuna: Dessas, qual é a mais grave de todas elas?
Dra. Maria Beatriz:
A doença meningocócica costuma ser mais grave, além dos quadros de SRAG causados pelo vírus influenza. Já vivemos recentemente outra pandemia de influenza H1N1 que cursou com diversas mortes por SRAG. E hoje estamos enfrentando a COVID-19 com alta taxa de transmissão e risco de evolução com gravidade e óbito.

Tribuna: Há infecções bacterianas que também são transmitidas dessa forma, através da tosse, conversas entre pessoas ou grupos e espirros?
Dra. Maria Beatriz:
Sim, principalmente a coqueluche e a doença meningocócica.

Tribuna: Neste momento, em que fase estamos da pandemia, que provocou a Covid-19?
Dra. Maria Beatriz:
Historicamente as semanas 23, 24 e 25 do ano são as piores em termos de doenças respiratórias principalmente por influenza – muita transmissão, muitos casos novos, muitos casos graves e muitos óbitos. Estamos vivendo a semana 25 e observando de perto o grande aumento de casos e volume de leitos ocupados por pacientes graves com COVID-19. A tendência é de ainda perdurar algumas semanas para depois, nos mesmos moldes de outros países e outras capitais do país, irmos tendo uma redução progressiva do número de casos. Mas, tratando-se de Brasil, com tantas características diferentes, infelizmente não há como prever um comportamento do vírus nas diferentes regiões e populações.

Tribuna: Já há algum estudo pontual, que possa indicar que uma pessoa infectada está livre do vírus? Ou ele será apenas contido com uma vacina, que assim como a da gripe, deverá fazer parte do calendário nacional de vacinação?
Dra. Maria Beatriz:
Do que se sabe até o momento, as pessoas que tiveram a doença, sintomáticas ou não, desenvolvem anticorpos detectados no sangue. Mas, como a doença é muito nova, tudo muito recente, não sabemos se estes anticorpos de fato protegem para não pegar novamente, se persistem ao longo do tempo, ou se vão proteger caso haja contato com algum vírus com mutação. Tudo é muito novo. Não dá pra saber nada com segurança ainda. Sobre as vacinas, a expectativa é que provavelmente estarão disponíveis em 2021. Só então saberemos se serão eficazes em longo prazo, quantas doses serão necessárias, eventos adversos e outros detalhes inerentes a cada tipo de vacina

Tribuna: A Covid-19 pode ser comparada a um surto de gripe, por exemplo? Pelos sintomas que causa nos infectados mais suscetíveis?
Dra. Maria Beatriz: Sim, a Covid-19 causa um quadro gripal. O que tem se mostrado até o momento é que pode ser muito leve em alguns, mas manifestar quadros muito graves com comprometimento não apenas dos pulmões, mas também do sistema nervoso, do intestino, dos rins etc., até o óbito em outros. Sabemos que existe uma interação com o hospedeiro, e uma combinação entre a presença do vírus e a reação determinada pela resposta do indivíduo à presença do vírus. Então, a gravidade e mortalidade mostram-se maiores do que na gripe.

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