O senso, o consenso e o bom senso

O senso, o consenso e o bom senso

Antonio Claudio Bontorim
Jornalista
claudio.bontorim@tribunadelimeira.com.br

Fui cobrado, de forma discreta, porém, sobre a publicação de artigo de um colaborador da Tribuna de Limeira, exaltando a ditadura militar. Em pleno 31 de março. Respondi que eu defendia a liberdade de expressão e de opinião. E não poderia ser eu um censor, mesmo como censurado, que fui, ainda naquele período. Vou reproduzir nesse meu espaço um texto que publiquei, também no domingo 31 de março, no meu perfil no Facebook. Como segue, com algumas edições, para adequar ao espaço da coluna.
A única cor que simboliza a ditadura militar é o luto. Para quem conheceu seus tentáculos e quem viveu em universidade num dos piores momentos do país, não há como explicar a dor daqueles que sentiram na carne a tortura, a morte e, de muitos, que nem enterraram seus mortos ainda. Não há lado bom num sistema dessa natureza. A liberdade de se expressar e levar o conhecimento foram vítimas também. Quem afirma que não houve corrupção entre os generais e subalternos militares, só não sabe o que de fato aconteceu, por que nada se divulgava. Não houve subversão de comunistas, houve uma luta desigual de quem não podia se expressar e, por isso, não se sabia do que acontecia no país, enquanto se torturava, matava e despejava corpos ao mar. A chamada Operação Condor. Enquanto todos comemoraram o tri da seleção, cantando que eram 90 milhões em ações, os gritos dos torturados sufocavam ao som alto da melodia.
O progresso, ou melhor, o milagre econômico no início da década de 1970, foi um processo que enriqueceu ricos que apoiavam a ditadura militar. Os mesmos que hoje defendem o 31 de março, ou acreditam que de fato foi a redenção do país, mas não teve sangue derramado e nem pessoas torturadas. Ignorar esses acontecimentos ou defendê-los é tripudiar sobre essas famílias, muitas das quais até hoje procuram seus entes queridos. Os crimes de estado foram muito maiores que os crimes creditados a comunistas ou pretensos terroristas. E que ninguém se esqueça: se hoje todos podem falar o que bem entendem e expressar livremente suas opiniões, é porque muita gente morreu por isso.
Os mesmos que defendem a liberdade de expressão do pensamento hoje, de 1964 para cá e até o fim da ditadura, e expõem a intolerância, o ódio e o preconceito, foram e são os que apoiaram a censura entre 31 de março de 1964 até 1985. Mas só podem se manifestar por que alguém foi torturado por isso. Sepultar 31 de março, definitivamente, é um caminho óbvio. Aqueles que, supostamente, foram vencidos pela tortura, pela morte e pela censura, são os verdadeiros responsáveis por aqueles que hoje podem se expressar e disseminar a ideia de que a ditadura não existiu no Brasil.
Mesmo assim, não me cabe censurar quem pensa dessa forma.  Se fosse o contrário, com certeza, eu seria  censurado.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*