A erística venceu

A erística venceu

Ronei Costa Martins Silva
Arquiteto e urbanista

O filósofo Olavo de Carvalho publicou um ensaio denominado “Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão”. Embora o título pareça o de um manual para os que desejam enganar o povo, de início o autor adverte dizendo que o leitor tem nas mãos um tratado de patifaria intelectual, não para uso dos patifes, mas sim de suas vítimas. O livro dedica-se a uma análise da obra incompleta “A Dialética Erística”, do pensador Schopenhauer. Nela o filósofo faz uma análise dos esquemas argumentativos enganosos que os maus políticos utilizam, com razoável sucesso, para enganar o povo.
Separemos o joio do trigo: a retórica é a arte da persuasão, do convencimento. É capacidade de defender uma idéia articulando argumentos em favor da mesma. Já a erística, em contrapartida, trata da artimanha de falsear argumentos usando-se de variados artifícios para se vencer um debate sem necessariamente ter a razão.
Na vida pública a retórica é uma habilidade importante, entretanto, nota-se com frequência a substituição da retórica pela erística. Na falta de bons argumentos, costuma-se recorrer aos mais variados artifícios para se vencer o debate a qualquer custo. Os apelos chegam a agredir a inteligência alheia. A manipulação da informação e as atuais fake news, por exemplo, são estratagemas usados para confundir, fazendo o verdadeiro parecer falso e o falso, verdadeiro. Outras estratégias também são muito utilizadas, como o autoritarismo do candidato e suas recorrentes ameaças, assumindo a condição de grande pai que cuidará de todos e afastará o “mal”.  Apelar para o emocional, por meio da manipulação de temas tabus na sociedade, tais como a questão da homoafetividade e da sexualidade também é um recurso muito eficiente quando se quer fugir da retórica e fazer uso da erística para se vencer o debate. Aliás, fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para dificultar uma análise racional e assim confundir o povo. É sabido que estes tipos de estratégias buscam abrir a porta do inconsciente a fim de se implantar sensações e temores (medos), objetivando o convencimento não pelas ideias, mas pelo apelo daquele que, sem retórica, lança mão do que lhe resta para vencer a disputa política.
A política é morada destes desejos incontroláveis. Importa pra nós conhecermos tais artifícios a fim de nos remediarmos e fugirmos desses apelos à nossa inteligência que visam, exclusivamente, a manutenção de um sistema que de um lado oprime o povo e de outro distribui privilégios.
Acabamos de testemunhar a eficiência deste método e a vitória da Erística sobre a Retórica!

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