Senso&Consenso

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Mais que uma Morte e Vida Severina

A indecência e a desumanidade está tomando conta das pessoas, mesmo diante de tragédias, sejam elas anunciadas ou não. Estou falando do incêndio que praticamente implodiu um edifício de mais de 24 andares, de propriedade do governo federal, no Centro de São Paulo, ocupado por sem tetos. Ainda não se tem o tamanho exato dessa catástrofe urbana, mas as redes sociais foram pródigas em postagens preconceituosas e, por outro lado, justificativas de cunho histórico, político e ideológico, que neste momento não merecem nem ser levadas em consideração, tamanha é a irrealidade e o absurdo de tais argumentos. O ser humano está perdendo sua principal característica: a humanidade.
Bem alimentados, confortáveis em seus lares e abrigados das intempéries da vida e do tempo, teóricos da estupidez se sentem no direito de julgar atitudes, além do próprio desconhecimento e da linha reta por onde costumam enxergar. Por que estão cercados das benesses que suas boas vidas lhes proporcionam, se sentem no direito de zombar, caçoar e até mesmo adjetivar seus semelhantes, que não desfrutam dos mesmos confortos. Com certeza, muitos desses cidadãos do bem, como gostam de ser chamados e tratados, se ajoelham nos bancos das missas dominicais e levantam os olhos para os céus, agradecendo seus bens e posses, mas não conseguem olhar para o lado e ver a realidade, que vai muito além dessa visão linear.
Ouviu-se até mesmo o ex-prefeito paulistano, o tucano João Dória, que abandou o cargo para ser candidato a governador do Estado (e que os votos nos livre e guarde desse caricato político), em entrevista, afirmar que os moradores do prédio incendiado eram membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e estimulados por políticas do PT e de movimentos sociais. Doente de corpo, mente e alma, como todos os que pensam dessa forma, ele foi desmentido pelo próprio secretário paulistano da Habitação, Fernando Chucre, da sua gestão e do atual prefeito, o também tucano Bruno Covas. Doria perdeu a oportunidade de ser um grande poeta, ficando calado. Não é possível que o homem tenha chegado a esse nível de desprezo com seu semelhante. Não é possível acreditar no que se lê e ouve, quando a oportunidade dá voz a esses idólatras do ódio e do preconceito, para quem a vida se resume apenas ao próprio direito de ter e estar em algum lugar. Todos os demais são párias sociais e devem se contentar com sua própria “Morte e Vida Severina”, conforme retratou João Cabral de Mello Neto em seu conhecido poema.

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