Senso & Consenso

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Bandeiras dobradas; panelas quietas

O país vive uma situação inusitada. Surreal até. Num momento em que a crise política ganha proporções assustadoras, com prisões e denúncias, que chegou ao próprio presidente da República, Michel Temer (PMDB) – o primeiro presidente denunciado no exercício do mandato – as ruas estão silenciosas. Nem mesmo a oposição consegue mais reunir manifestantes para marchar contra isso. Com os crimes mais escabrosos de corrupção, as provas, essas sim, fortes e não circunstanciais e muito menos suposições ou meros indícios como apresentaram os procuradores federais da Lava Jato, os “camisas-amarelas”, os mesmos que empolgaram certa fatia da população com suas manifestações anticorrupção, se aquietaram. Os mesmos que pediam a criminalização do PT e prisão do ex-presidente Lula e a deposição da também petista Dilma Rousseff, o seu impeachment, cada vez mais golpe, agora concordam com o momento brasileiro porque, no íntimo, já conseguiram o que queriam.
Ao longo das marchas de 2015 e 2016, na realidade, em nenhum momento foram às ruas pela decência na política, pela transparência e apreço ao patrimônio público, mas, sim, para derrubar um status que não lhes agradava, enquanto se supunham elite, mas não são elite. Há ricos, milionários, grupos que sociologicamente fariam parte de uma elite, mas sociologicamente isso não acontece. Principalmente porque faltam cultura e conhecimento histórico entre eles. Enfim, o caso não debate as razões dessa pseudoelite, mas sim o barulhento silêncio que se abateu sobre seus representantes. As panelas, que batiam pelas janelas e sacadas abertas, não fazem mais barulho, a não ser o tradicional, da cozinha. E as bandeiras, antes enroladas aos corpos e em marcha pelas ruas das grandes cidades, estão dobradinhas e também silenciosas em alguma gaveta de guarda-roupa ou cômoda.
E hoje o escracho é muito maior. As prisões se sucedem (Lula e Dilma, entre outros continuam soltos) atingindo o coração do poder e tudo está normal. Não há com o que se preocupar, mesmo que o presidente da República seja um corrupto comprovado. Há algo de extremamente preocupante, mas que não é novidade nenhuma, com essa falta de reação.
Com essa desmobilização, até mesmo pelas redes sociais. MBL, Vem pra Rua, entre outros filhotes da direita explícita, agora miram a política partidária. E o que mais assusta é que até os movimentos sociais, representantes da esquerda, silenciaram suas vozes. Os primeiros estão envergonhados com o resultado dos protestos e preferem agora se esconder e ao nariz vermelho que tanto usaram. Os segundos, até agora não apresentaram explicações para tamanho silêncio e desmobilização. E assim os dias passam…

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