Senso & Consenso

Senso & Consenso

Da luz às trevas

A polêmica que alguns vereadores daquela que seria uma “bancada da Bíblia” (que é como se costumou chamar deputados e senadores ligados a igrejas evangélicas em todo o país) vem criando na Câmara em torno de propostas que tratam de identidade de gênero e foram mostradas com muita competência em matéria do jornalista Danilo Janine, na edição passada da Tribuna de Limeira, nos remete a um passado sombrio. Em vez de evoluirmos à mesma velocidade com que avançam as tecnologias e deveria também caminhar as relações humanas e sociais, estamos numa involução. De volta a um passado obscurantista, onde a religião – não a fé, que fique bem claro – dava as cartas e atacava de forma contundente a ciência, a inteligência e todos aqueles que não compartilhavam de seus ensinamentos, para manter sua hegemonia sobre a identidade do homem como sua propriedade, única e exclusiva.
Em pleno Século 21, e com o um estado laico na sua concepção, onde a liberdade permite a todas as crenças que se propaguem, sem criminalizar qualquer doutrina religiosa, não se pode aceitar que essa mesma crença interfira nas relações sociais, a que tratei anteriormente, por questões de identificação com esse ou aquele grupo ou por uma leitura equivocada da própria Bíblia, do Corão ou qualquer outra escritura, com suas múltiplas interpretações. Leitura que provoca idolatria e fundamentalismo, que em nada difere do fundamentalismo religioso, que está enfronhado nas diferentes sociedades espalhadas pelo planeta. Sejam elas cristãs ou muçulmanas. A intolerância, como se sabe, não tem ideologia, etnia ou crença religiosa. E é essa intolerância o inimigo a ser combatido, principalmente quando ela advém justamente de quem deveria ser mais tolerante. Afinal, quando se fala em crença ou fé, a primeira imagem que nos surge à cabeça é o amor ao próximo, a tolerância com as diferenças e, acima de tudo, a defesa da vida como ela é. O que não vem ocorrendo. Até alguns fundamentalistas católicos também partem para esse lado perigoso de distorção de ensinamentos.
A própria sociedade não deve permitir esse tipo de ascensão em nome de uma interpretação deformada daquilo que se lê, conforme a conveniência de convicções religiosas e seus pregadores, que acreditam ter o domínio sobre a vida. O domínio da vida e suas consequências pertencem exclusivamente a cada ser humano, pelo direito inviolável à sua própria identidade. Cada um deve fazer de seu juízo de valor uma exclusividade, sem interferir nas escolhas alheias. Mais que isso, respeitar essas escolhas acima da religião ou ideologias.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*