Senso & Consenso

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Morbidez desnecessária

A revista Veja passou dos limites na edição da semana passada, ao trazer em sua capa e com semblante bravo, uma foto de 2010 da ex-primeira-dama, Marisa Letícia, com a manchete “A morte dupla”, numa alusão ao depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula a Silva ao juiz Sérgio Moro, no último dia 10, em Curitiba, quando ele citou que as decisões sobre o tríplex do Guarujá foram dela. Em que pese o erro de Lula ao fazer a citação, para dizer que o apartamento não interessou e que o negócio foi desfeito antes da conclusão, o desrespeito e o escárnio da Veja foram patentes, tanto que foi pouco comentada nas redes sociais, até mesmo pela direita extremista e que odeia tudo o que se refere ao PT. Foi, sim, execrada por muitos internautas, que entenderam que em nada acrescentou ao jornalismo e à liberdade de imprensa tal publicação.
Outra postagem, também durante a semana, que invadiu contas de WhatsApp e também o Facebook, foi a foto de uma sepultura coberta por grades, numa alusão a um mandado de prisão contra a também ex-primeira dama, expedido pela Justiça de Curitiba, após o depoimento de Lula. Em que pese a criatividade e o humor do brasileiro, vale lembrar que o mau gosto não faz parte desse cenário, que só faz transbordar ainda mais o ódio e a intolerância, de ambos os lados, nas discussões públicas e até mesmo privadas, pela falta de respeito de um para com outro e do outro para com um. Trata-se de uma morbidez desnecessária e que, nesse caso, nada tem a ver com o politicamente correto. Mas tudo a ver com o caráter de pessoas que brincam com desventura alheia.
A situação tomou tal proporção, que está cada vez mais difícil separar as pessoas “do bem”, como gostam de se auto rotular, chamando para si a qualidade da dignidade, quando mostram o contrário, tornando-se indignas dessa qualificação. Não é trocadilho ou repetição. É constatação. O que é mais triste, entretanto, é quando vejo pessoas inteligentes e cultas (quando não me engano na minha capacidade de entender o meu semelhante), partindo para esse tipo de agressão verbal desnecessária. Ou seria uma forma de esnobar a própria ignorância, se é que podemos tratar dessa forma e por quão ridícula é essa analogia, ao se levar em consideração que ninguém vai querer exaltar sua própria estupidez. Debater ideias vai além de preferir coxinha ou mortadela (eu praticamente gosto de ambas, quando de boa qualidade). Passa pela capacidade de respeitar a opinião do outro, mesmo que não concorde com ela. Respeitar, pelo que sei, não é sinônimo de endossar.

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