Saramago e arte de enxergar

A visão deteriorada de muitas pessoas (nada físico) embaçada pela intolerância e falta de vontade em aprender além de sua própria doutrinação – seja ela de cunho religioso, político ou ideológico – acaba criando uma série de zumbis intelectuais. Não é de hoje que esse princípio norteia o caminho daqueles que não conseguem conviver com as diferenças. Que têm sempre na ponta da língua a afirmação “eu estou certo e você é o errado”. Nada mais frustrante do que ouvir esse tipo de crítica de gente sabidamente com grau de cultura e inteligência elevado. Cultura, sim. Inteligência, nem tanto. Um paradigma que passa pela concepção de cada um desses termos. Mesmo porque uma pessoa culta nem sempre mostra inteligência e nem todo inteligente é, necessariamente, culto. Daí o termo zumbi intelectual. Que é justamente aquele que não enxerga além de campo linear de visão. Os lados não têm valor ou passa-se um apagador nessa realidade lateral, que é o que mais incomoda esse tipo de cidadão.
É fácil encontra-lo, quase sempre nas redes sociais, mas nunca tentando absorver a crueza da vida real, que está no seu entorno. Esqueci-me, ele não enxerga o entorno. Nem sabe o que é isso. O problema que essa cegueira patética contamina cada vez mais gente, que percebe como é fácil não precisar usar da reflexão como característica da própria inteligência. E cultas. Um dos momentos mais impressionantes que experimentei na literatura foi a leitura do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Uma obra prima que de uma forma bastante realística trata dessa cegueira à qual me refiro. Uma cegueira tópica, mas conveniente às necessidades de cada um.
Longe do desesperado relato da única personagem que não foi acometida pelo “mal-branco”, justamente a mulher do oftalmologista, tudo o que temos hoje sobre a contraposição de ideias e ideais é um reflexo dessa cegueira metafórica. E a tendência é que essa epidemia ganhe contornos assustadores, à medida que muitos dos que veem não conseguem mais enxergar.