No princípio era uma República…

O Brasil vive, hoje, uma realidade fantástica. Uma verdadeira ficção política. Com personagens tão surreais, que qualquer ficcionista gostaria de tê-los criado. Protagonistas de uma verdadeira ópera bufa, que a cada momento nos brindam com suas peraltices, como se fosse a coisa mais normal do mundo fazer, desfazer, refazer e, finalmente, conseguir se comportar como nada tivesse acontecido. E não para por aí, porque todos os poderes da República (se é que ela ainda existe) foram contaminados de tal forma, que parece não haver antídoto contra essa epidemia de irrealidade. Até os que pareciam mais sensatos se deixaram absorver por esses caprichos, empurrando qualquer tipo de expectativa positiva para o lodo fedorento dos esgotos públicos. A Câmara, do peembebista Eduardo Cunha (que hoje está preso), foi a primeira a entrar nessa ficção; o Senado, de Renan (Calheiros, PMDB), que ainda não foi preso, veio depois e, com ele, está levando a Presidência da República, com o mais grotesco dos personagens, Michel Temer, incrustrado na cadeira de presidente, sem saber o que de fato está fazendo por lá. Caiu de paraquedas, já embalado para presidente, com faixa presidencial e tudo mais. E dá até para ver os fios que o fazem movimentar, em rodopios aleatórios. Que o levam onde aqueles que o sustentam querem que ele vá. Um bufão no sentido exato da palavra. Até mesmo o STF (Supremo Tribunal Federal), com seus doutos ministros e ministras, se perdeu em suas ponderações jurídicas, para fazer valer uma postura enfrentamento entre eles próprios, revelando que os interesses políticos e partidários ganham cada vez mais força em seus julgamentos. Os que eles decidem pela manhã não sustentam à tarde e, à noite, já virou festa. Era, até o caso Renan (do afastamento à sua recondução à Presidência do Senado), um ponto de luz e esperança de que o trem desgovernado pudesse voltar aos trilhos novamente. O verbo, se todos perceberam, está no tempo passado. E pelo visto vai continuar assim sendo conjugado. E os bobos da corte somos nós. Uns mais bobos que os outros, porque contribuíram diretamente para que o enredo da história tomasse esse rumo. Todos os atos vão se completando. Falta apenas o epílogo, que é imprevisível, porém, não desconhecido.